quinta-feira, 11 de agosto de 2011

MEDICINA HOSPITALAR, ESTE MODELO JÁ CHEGOU NO BRASIL

 As discussões crescem muito em todo mundo sobre modelos de assistência em enfermarias e a Medicina Hospitalar, com publicações, eventos e novidades.
Quero desde já convidar todos para o primeiro evento oficial de Medicina Hospitalar na Argentina, que acontecerá dias 23 e 24 de setembro, no Hospital Universitario Austral, na cidade de Pilar, próxima da capital portenha. 
Para entendermos o modelo de Medicina Hospitalar (MH), devemos lembrar como era nos Estados Unidos o modelo de assistência em enfermarias até poucos anos atrás. Chamá-lo-ei de modelo tradicional. Há não mais do que 10 anos, a regra era: o mesmo médico que atendia a pessoa no ambulatório ou em casa se encarregava de cuidar dela também durante uma eventual internação – “passando visita”. Ocorre que inúmeros fatores alteraram gradativamente esta realidade nas enfermarias (já havia acontecido algo parecido nas unidades de terapia intensiva e pronto-socorros). Os hospitais e os pacientes foram se tornando progressivamente mais complexos. Os médicos da atenção primária que não possuíam um alto volume de doentes internados foram perdendo o interesse em ter pacientes no hospital. Os custos da assistência médica, principalmente da hospitalar, foram crescendo e atingiram patamares alarmantes. Maior eficiência e redução de custos se tornaram obrigação. Tempo de internação precisava ser reduzido. Em 1999, relatório do Institute of Medicine trouxe à tona a questão dos erros na assistência à saúde e, a partir dele, ganhou força o movimento de segurança do paciente e da qualidade assistencial. Em meio a isto tudo, gestores começaram a se dar conta de que precisavam mais dos médicos, ou de pelo menos parte deles, envolvidos no dia-a-dia das organizações, e não somente como visitantes. O modelo tradicional foi se mesclando, aos poucos, com o de Medicina Hospitalar, onde médicos passam a atuar dedicados ao hospital e às suas especificidades. Três tipos de médicos categorizados de acordo com sua relação com os hospitais foram nitidamente surgindo: aqueles com atuação eminentemente ambulatorial; os chamados “visitantes importantes”, sub-especialistas reconhecidamente indispensáveis para a boa prática da Medicina moderna; e “the home team” (intensivistas, emergencistas e, mais recentemente, médicos generalistas que foram “criando raízes” nas enfermarias). Os representantes da primeira categoria se tornaram clientes dos hospitais e dos hospitalistas.
Algumas considerações desde já:
- O aumento de custos após a alta mais do que neutralizou os benefícios financeiros conquistados dentro do hospital!? Na geração de despesas hospitalares por “conta aberta” (nossa realidade), todos os serviços, procedimentos e medicações são pagos pela fonte pagadora tradicional, independente de serem gerados por erros ou eventos adversos. Quando algo sai errado tornando a assistência hospitalar mais onerosa, não impacta no prestador. A partir de novos modelos, já em discussão no Brasil, onde hospitais passam a receber um fixo e/ou a compartilhar alguns riscos (perdem dinheiro com erros e danos), essenciais são a remuneração adequada e os mecanismos de controle para tornar a despesa gerada por práticas inseguras responsabilidade de quem a produz. Pode ter faltado isto, permitindo pressão demasiada por alta hospitalar precoce, mal gerenciada por parte dos prestadores.
Creio que os resultados negativos são decorrentes do mau uso do modelo por muitas instituições, diluindo bons resultados mais do que conhecidos.
Está reforçado o desafio de aprimorarmos a comunicação entre hospitalistas e outros médicos. A Society of Hospital Medicine há algum tempo tem percebido isto e investido em iniciativas como BOOST. No Sistema Único de Saúde brasileiro, esta descontinuidade de qualquer forma já existe, sem hospitalistas na maioria dos casos. Na nossa saúde suplementar, a fragmentação da assistência também é um problema, com ou sem a Medicina Hospitalar. Com a MH se ganha em organização da assistência intra-hospitalar (um etapa crítica e por vezes longa), havendo a quebra de continuidade para ser trabalhada, com outra etapa crítica de igual importância. No modelo tradicional, a não incomum falta de qualquer coordenação potencialmente tem gerado os mesmos problemas.
Ao perceber este movimento, em 1996, o pioneiro Robert Wachter cunhou o termo “hospitalist” em artigo publicado no New England Journal of Medicine. Wachter ficou conhecido como o “pai” da MH – por esta publicação, mas principalmente por fazer de seu programa em hospital da UCSF um dos mais bem sucedidos e por ter sido o grande líder e mentor do movimento norte-americano, organizado através da Society of Hospital Medicine.
No ano em que Wachter cunhou o termo, havia lá cerca de 800 profissionais atuando como hospitalistas, ainda incompletos – em processo de aprendizado, principalmente para lidar com as necessidades do sistema, mais do que de pacientes individualmente. Em 2006, somavam aproximadamente 20.000 e as projeções apontam que, em 2012, serão mais de 30.000, consolidando esta como a área de atuação médica que mais rapidamente cresceu na história da Medicina moderna, com direito à grande quebra de paradigma e posterior geração de resultados inquestionáveis por aumento de eficiência nas instituições.
Medicina Hospitalar é um modelo com características bem peculiares. Não se trata de plantão clínico ou de equipe de apoio clínico e/ou gerencial. Classicamente, um grupo de médicos generalistas (nos Estados Unidos, a maioria com formação em Clínica Médica) assume a coordenação dos processos assistenciais, atuando, sempre que possível, em sinergismo com os processos administrativos. Como resultado, vislumbra-se lógica assistencial e lógica administrativa operando de forma associada, com foco no paciente e na eficiência dos serviços. Hospitalistas seriam então médicos generalistas cujo foco profissional primário é o cuidado clínico de pacientes hospitalizados e a coordenação de equipes multidisciplinares, incorporando habilidades especiais para servir a estes propósitos. Recebem pacientes dos médicos da atenção primária e eventualmente de sub-especialistas e os devolvem ao colega ao final da internação. A quebra de continuidade entre o hospital e o ambulatório é obviamente uma conseqüência do modelo, potencialmente pode trazer problemas e, por isso, precisa ser bem trabalhada.


Quer conhecer mais sobre o assunto...


                                                           Guilherme Brauner Barcellos

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