quinta-feira, 5 de julho de 2012

FALTA DE MÉDICOS: QUANTIDADE INSUFICIENTE OU MÁ REMUNERAÇÃO?



Faltam médicos no Brasil. Essa afirmação é feita constantemente pelos governantes e amplamente divulgada na mídia. Não raro, vemos notícias sobre falta de especialista em um hospital ou dificuldades de contratação no interior. Em recente matéria intitulada "Leilão de Médicos", publicada no dia 6 de abril de 2012, o jornal Estado de Minas destaca que mesmo com os altos salários oferecidos para médicos no interior não aparecem candidatos para as vagas e, mesmo quando aparecem, a rotatividade é alta.

O argumento tem sido utilizado para justificar a abertura de novas faculdades de Medicina e a criação de critérios facilitadores para validação de diploma de médicos formados no estrangeiro. "Se pegarmos a recente pesquisa 'Demografia Médica no Brasil', publicada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em parceria com o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), veremos que a justificativa não tem embasamento, explica o presidente do CRMMG, João Batista Gomes Soares.

O estudo mostra que, em outubro de 2011, os conselhos de Medicina registravam a existência de 371.788 médicos em atividade no Brasil. O número confirma uma tendência de crescimento exponencial da categoria nos últimos 40 anos. Entre 1970, quando havia 58.994 médicos, e hoje, o número de médicos saltou 530%. O percentual é mais de cinco vezes maior que o do crescimento da população, que em cinco décadas aumentou 104,8%.

Enquanto a taxa de crescimento populacional reduz sua velocidade, a abertura de escolas médicas e de vagas em cursos já existentes vive um novo boom. A estimativa é de que cerca de 16.800 novos profissionais desembarquem anualmente no mercado de trabalho a partir de 2011.

Analisando os dados fica a pergunta: mesmo com o aumento expressivo do número de profissionais, por que faltam médicos? O Brasil é um país marcado pela desigualdade no que se refere ao acesso à assistência médica. De acordo com a pesquisa do CFM, uma das conclusões obtidas com a análise dos dados é que a população médica brasileira, apesar de apresentar uma curva constante de crescimento, permanece mal distribuída pelo território nacional, com vinculação cada vez maior aos serviços prestados por planos de saúde, pouco afeita ao trabalho na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). "Não existe nenhuma pesquisa que comprove que a abertura de cursos no interior gera a fixação do médico na cidade em que estudou. A maioria dos médicos recém-formados quer trabalhar na capital ou nos grandes centros", destaca o presidente do CRMMG.

Uma das soluções defendidas pelas entidades médicas é a criação do cargo de médico do estado. Da mesma forma que existem cargos para o poder judiciário que incentivam os profissionais a ficar no interior, o médico do estado teria um plano de carreira que possibilitaria mobilidade por tempo de serviço e por critérios de merecimento. "Um médico, ao passar no concurso, ficaria em uma cidade do interior, mas com a possibilidade de mudar, caso fosse de seu interesse, de acordo com critérios baseados em um plano de carreira", explica João Batista (veja matéria página 09).

Segundo o presidente do CRMMG, o problema da ausência de profissionais no interior não acontece por falta de médicos e sim por falta de uma política séria pra enfrentar o problema, valorizando o médico e proporcionando ao mesmo condições de trabalho. "Precisamos de um planejamento regionalizado, com estrutura, não é só médico que vai resolver a questão, tem que ter infraestrutura de trabalho", esclarece ao destacar que não adianta um município pagar 15 mil reais a um médico e ele ser o único para atender. "O salário é importante, mas o médico não tem como trabalhar 30 dias ao mês, 24 horas por dia. Além da remuneração, ele precisa ter como atender, com infraestrutura ou, pelo menos, sabendo que terá para onde encaminhar seu paciente para resolver o problema", destaca.



Fonte: CRM MG

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